Chico Zandonadi é o típico descendente de italianos que conquista a todos com seu senso de humor e presença de espírito. Além de jornalista, é professor de filosofia e transmite seus conhecimentos ao público de uma forma simples e clara, deixando a informação ao alcance de todos.

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Dona Sunta Miglioretto mora no sítio, mas sempre que pode dá uma "canjinha" na FMZ. Fã do Chico, D. Sunta adora dar palpites no programa e reclamar de seu marido, Miguel.




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Conhecido pela sua estreita relação com a cultura do imigrante italiano, Benjamim Falqueto reúne em seu blog suas crônicas, poesias e hinos, como o Municipal de Venda Nova, de sua autoria






Blog do Chico

  Publicado em 30-09-2009 às 09-24h

A missa das 10



30/09/2009 - (A Gazeta)
Em Venda Nova do Imigrante existe um grupo denominado Voluntárias do Hospital Padre Máximo que tem 30 anos de trabalho com o objetivo focado em proteger e assistir ao hospital municipal. Hoje são 120 mulheres que se doam em trabalho e o transformam em mercadorias, que geraram construções, equipamentos médicos, ambulâncias e rouparia para o funcionamento decente do hospital.

Lá também tem a Festa da Polenta que por mais de 30 anos preserva as tradições trazidas na alma e nos navios da imigração do final do século XIX, que trouxe os seus ascendentes italianos, tangidos pela fome e a miséria. Nesta festa, centenas de pessoas se revezam no trabalho voluntário que vai gerar dinheiro para as obras sociais.

Outro fato que já tem mais de 40 anos é a festa dos universitários. Um encontro dos que saíram para estudar fora. Até aí, nada de diferente, quando olhamos com um olhar comum. Mas se olharmos com a visão de que eles sempre entenderam a vida como uma necessidade de terem Educação, formação, aprendizado e trabalho como parceiros, veremos outra realidade, o exercício de buscarem e não ficar esperando e se lamuriando.

Lá teve presença do padre Cleto Caliman, um animador das iniciativas comunitárias, que com elas vibrava e aproveitava para colocar mais luz no horizonte, para novas caminhadas e novos desafios. Um animador de comunidade.

Lá eles se organizaram, principalmente os que ganham a vida no trabalho nas lavouras e na lida com os animais, e partiram para agregar valor ao que produziam. É o que chamamos hoje de agroturismo – ação que despertou interesse de produtores de outros municípios capixabas e também de outros Estados. No agroturismo, eles recebem nas suas casas os visitantes, que convivem com o dia a dia do campo.

Em 1996, um jornalista da revista Caminhos da Terra passou por lá ficou encantado com as nossas montanhas, definiu com sabedoria o agroturismo: uma sábia maneira de associar as belezas naturais da região com seus produtos típicos. Cada família, de cada sítio aperfeiçoou-se na produção do que já sabia fazer bem.

No final da reportagem, o jornalista Ronaldo Ribeiro estava no Pico da Bandeira e olhando para baixo e relatou:

– Se for domingo de manhã, pode apostar que é dia de festa depois da missa. Alguns copos de vinho e uma boa dose de alegria depois, estarão os italianos cantando, bebendo e arriscando a sorte num jogo barulhento chamado mora – cada um dos jogadores tem de adivinhar, aos berros e numa sequência rápida, a soma dos dedos da sua mão e da mão do adversário, depois de abertas. E, principalmente, estarão eles rindo, rindo muito. Aqui é sempre assim. Trabalhamos duro durante a semana para poder celebrar com essa mesma fé aos domingos. Vivemos com alegria e dignidade, arremata o agricultor Erasmo Minetti. A emoção com que os imigrantes italianos de Venda Nova do Imigrante falam da vida é um generoso exemplo. De um estado de espírito. Do Estado do Espírito Santo.

Outro dia estive em Venda Nova Do Imigrante e participei da festa falada no parágrafo acima. Tomei vinho, comi polenta e torresmo, mas fiquei triste ao saber que existe um movimento em andamento para acabar com a festa da sabedoria dos italianos de Venda Nova do Imigrante. No mínimo deve ser gente que não entende nada daquele lugar.


Ronald Mansur é jornalista.

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  Publicado em 28-09-2009 às 17-45h

A DOR DO VIVIDO



Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advêm das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e de que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.




Texto de Carlos Drummond de Andrade

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  Publicado em 09-08-2009 às 19-48h

senza parole

Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum», diz Adélia Prado.
Escritora brasileira defende resgate da beleza na celebração da liturgia
APARECIDA, domingo, 2 de dezembro de 2007 (ZENIT.org).- Ao defender o esmero com as celebrações litúrgicas e a beleza como uma «necessidade vital» que deve permeá-las, a escritora brasileira Adélia Prado afirma que «a missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum». «A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso», enfatiza. falou sobre o tema da linguagem poética e linguagem religiosa essa quinta-feira, em Aparecida (São Paulo), no contexto do evento «Vozes da Igreja», um festival musical e cultural.
Ao propor a discussão do resgate da beleza nas celebrações litúrgicas, Adélia Prado reconheceu que essa é uma preocupação que a tem ocupado «há muitos anos». «Como cristã de confissão católica, eu acredito que tenho o dever de não ignorar a questão», disse.
«Olha, gente – comentou com um tom de humor e lamento –, têm algumas celebrações que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar.»
Como um primeiro ponto a ser debatido, Adélia colocou a questão do canto usado na liturgia. Especialmente o canto «que tem um novo significado quanto à participação popular», ele «muitas vezes não ajuda a rezar».«O canto não é ungido, ele é feito, fazido, fabricado. É indispensável redescobrir o canto oração», disse, citando o padre católico Max Thurian, que, observador no Concílio Vaticano II ainda como calvinista, posteriormente converteu-se ao catolicismo e ordenou-se sacerdote.Adélia Prado reforçou as observações, enfatizando que «o canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilita a oração, mas impede o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa».
Segundo a poeta, «a palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição».
«Nós não encontramos mais em nossas igrejas o espaço do silêncio. Eu estou falando da minha experiência, queira Deus que não seja essa a experiência aqui», comentou.
«Parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto». «Não há silêncio. Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério», disse.
De acordo com a escritora mineira (natural de Divinópolis), «muitos procedimentos nossos são uma tentativa de domesticar aquilo que é inefável, que não pode ser domesticado, que é o absolutamente outro».
«Porque a coisa é tão indizível, a magnitude é tal, que eu não tenho palavras. E não ter palavras significa o quê? Que existe algo inefável e que eu devo tratar com toda reverência.»
Adélia Prado fez então críticas a interpretações equivocadas que se fizeram do Concílio Vaticano II na questão da reforma litúrgica.
«Não é o fato de ter passado do latim para a língua vernácula, no nosso caso o português, não é isso. Mas é que nessa passagem houve um barateamento. Nós barateamos a linguagem e o culto ficou empobrecido daquilo que é a sua própria natureza, que é a beleza.»
«A liturgia celebra o quê?» – questionou –. «O mistério. E que mistério é esse? É o mistério de uma criatura que reverencia e se prostra diante do Criador. É o humano diante do divino. Não há como colocar esse procedimento num nível de coisas banais ou comuns.»
Segundo Adélia, o erro está na suposição de que, para aproximar o povo de Deus, deve-se falar a linguagem do povo.
«Mas o que é a linguagem do povo? É aí que mora o equívoco», – disse –. «Não há ninguém que se acerca com maior reverência do mistério de Deus do que o próprio povo».
«O próprio povo é aquele que mais tem reverência pelo sagrado e pelo mistério», enfatizou.
«Como é que eu posso oferecer a esse povo uma música sem unção, orações fabricadas, que a gente vê tão multiplicadas e colocadas nos bancos das igrejas, e que nada têm a ver com essa magnitude que é o homem, humano, pecador, aproximar-se do mistério.»
Segundo a escritora brasileira, barateou-se o espaço do sagrado e da liturgia «com letras feias, com músicas feias, comportamentos vulgares na igreja».
Para Adélia Prado, «linguagem religiosa é linguagem da criatura reconhecendo que é criatura, que Deus não é manipulável, e que eu dependo dele para mover a minha mão».
Com esse espírito, enfatizou, «nossa Igreja pode criar naturalmente ritos e comportamentos, cantos absolutamente maravilhosos, porque verdadeiros».
Ao destacar que a missa é como um poema e que não suporta enfeites, Adélia Prado afirmou que a celebração da Eucaristia «é perfeita» na sua simplicidade.
«Nós colocamos enfeites, cartazes para todo lado, procissão disso, procissão daquilo, procissão do ofertório, procissão da Bíblia, palmas para Jesus. São coisas que vão quebrando o ritmo. E a missa tem um ritmo, é a liturgia da Palavra, as ofertas, a consagração… então ela é inteirinha.»
A arte a gente não entende. Fé a gente não entende. É algo dirigido à terceira margem da alma, ao sentimento, à sensibilidade. Não precisa inventar nada, nada, nada», disse Adélia.
E encerrou declamando um poema seu, cujo um fragmento diz:
Ninguém vê o cordeiro degolado na mesa,o sangue sobre as toalhas,seu lancinante grito,
ninguém”.

texto extraído de uma entrevista com ADÉLIA PRADO `a tv Aparecida

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  Publicado em 09-01-2009 às 17-55h

A Alegria na Tristeza

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.


Martha Medeiros

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  Publicado em 24-12-2008 às 21-35h

Duas ou três coisas que eu sei sobre Ele



fuga de Maria e do Menino Jesus para o Egito, retratada por Caravaggio (1571-1610)

Boa parte das nações e dos homens celebra, nesta semana, o nascimento do Cristo, e uma vez mais nos perguntamos, e o faremos eternidade afora: qual é o lugar de Deus num mundo de iniqüidades? Até quando há de permitir tamanha luta entre o Bem e o Mal? Até Ele fechou os olhos diante das vítimas do nazismo em Auschwitz, dos soviéticos que pereceram no Gulag, da fome dizimando milhões depois da revolução chinesa? E hoje, "Senhor Deus dos Desgraçados" (como O chamou o poeta Castro Alves)? Darfur, a África Subsaariana, o Oriente Médio... Então não vê o triunfo do horror, da morte e da fúria? Por que um Deus inerme, se é mesmo Deus, diante das "espectrais procissões de braços estendidos", como escreveu Carlos Drummond de Andrade? Que Deus é este, olímpico também diante dos indivíduos? Olhemos a tristeza dos becos escuros e sujos do mundo, onde um homem acaba de fechar os olhos pela última vez, levando estampada na retina a imagem de seu sonho – pequenino e, ainda assim, frustrado...

Até quando haveremos de honrá-Lo com nossa dor, com nossas chagas, com nosso sofrimento? Até quando pessoas miseráveis, anônimas, rejeitadas até pela morte, murcharão aos poucos na sua insignificância, fazendo o inventário de suas pequenas solidões, colecionando tudo o que não têm – e o que é pior: nem se revoltam? Se Ele realmente nos criou, por que nos fez essa coisa tão lastimável como espécie e como espécimes? Se ao menos tirasse de nosso coração os anseios, os desejos, para que aprendêssemos a ser pedra, a ser árvore, a ser bicho entre bichos... Mas nem isso. Somos uns macacos pelados, plenos de fúrias e delicadezas (e estas nos doem mais do que aquelas), a vagar com a cruz nos ombros e a memória em carne viva. Se a nossa alma é mesmo imortal, por que lamentamos tanto a morte, como observou o latino Lucrécio (séc. I a.C.)? Se há um Deus, por que Ele não nos dá tudo aquilo que um mundo sem Deus nos sonega?

Evito, leitor, tratar aqui do mistério da fé, que poderia, sim, responder a algumas perplexidades. O que me interessa neste texto é a mensagem do Cristo como uma ética entre pessoas, povos e até religiões. Não pretendo, com isso, solapar a dimensão mística do Salvador, mas dar relevo a sua dimensão humana. O cristianismo é o inequívoco fundador do humanismo moderno porque é o criador do homem universal, de quem nada se exigia de prévio para reivindicar a condição de filho de Deus e irmão dos demais homens. É o fundamento religioso do que, no mundo laico, é o princípio da democracia contemporânea. Não por acaso, a chamada "civilização ocidental" é entendida, nos seus valores essenciais, como "democrática" e "cristã". Isso tudo é história, não gosto ou crença.

Falo das iniqüidades porque é com elas que se costuma contrastar a eventual existência de uma ordem divina. Segundo essa perspectiva, se o Mal subsiste, então não pode haver um Deus, que só seria compatível com o Bem perpétuo. Ocorre que isso tiraria dos nossos ombros o peso das escolhas, a responsabilidade do discernimento, a necessidade de uma ética. Nesse caso, o homem só seria viável se isolado no Paraíso, imerso numa natureza necessariamente benfazeja e generosa. O cristianismo – assim como as demais religiões (e também a ciência) – existe é no mundo das imperfeições, no mundo dos homens. Contestar a existência de Deus segundo esses termos corresponde a acenar para uma felicidade perpétua só possível num tempo mítico. E as religiões são histórias encarnadas, humanas.

Em Auschwitz, no Gulag ou em Darfur, vê-se, sem dúvida, a dimensão trágica da liberdade: a escolha do Mal. E isso quer dizer, sim, a renúncia a Deus. Mas também se assiste à dramática renúncia ao homem. Esperavam talvez que se dissesse aqui que o Mal Absoluto decorre da deposição da Cruz em favor de alguma outra crença ou convicção. A piedade cristã certamente se ausentou de todos esses palcos da barbárie. Mas, com ela, entrou em falência a Razão, humana e salvadora.

Fé e Razão são categorias opostas, mas nasceram ao mesmo tempo e de um mesmo esforço: entender o mundo, estabelecendo uma hierarquia de valores que possa ser por todos interiorizada. As cenas das mulheres de Darfur fugindo com suas crianças, empurradas pela barbárie, remetem, é inevitável, à fuga de Maria e do Menino Jesus para o Egito, retratada por Caravaggio (1571-1610) na imagem que ilustra este texto – o carpinteiro José segura a partitura para o anjo. As representações dessa passagem, pouco importam pintor ou escola, nunca são tristes (esta vem até com música), ainda que se conheça o desfecho da história. É o cuidado materno, símbolo praticamente universal do amor de salvação, sobrepondo-se à violência irracional que o persegue.

Nazismo, comunismo, tribalismos contemporâneos tornados ideologias... São movimentos, cada um praticando o horror a seu próprio modo, que destruíram e que destroem, sem dúvida, a autoridade divina. Mas nenhum deles triunfou sem a destruição, também, da autoridade humana, subvertendo os valores da Razão (afinal, acreditamos que ela busca o Bem) e, para os cristãos, a santidade da vida. Todas as irrupções revolucionárias destruíram os valores que as animaram, como Saturno engolindo os próprios filhos. O progresso está com os que conservam o mundo, reformando-o.

Pedem-me que prove que um mundo com Deus é melhor do que um mundo sem Deus? Se nos pedissem, observou Chesterton (1874-1936), pensador católico inglês, para provar que a civilização é melhor do que a selvageria, olharíamos ao redor um tanto desesperados e conseguiríamos, no máximo, ser estupidamente parciais e reducionistas: "Ah, na civilização, há livros, estantes, computador..." Querem ver? "Prove, articulista, que o estado de direito, que segue os ritos processuais, é mais justo do que os tribunais populares." E haveria uma grande chance de a civilização do estado de direito parecer mais ineficiente, mais fraca, do que a barbárie do tribunal popular. Há casos em que é mais fácil exibir cabeças do que provas. A convicção plena, às vezes, é um tanto desamparada.

Este artigo não trata do mistério da fé, mas da força da esperança, que é o cerne da mensagem cristã, como queria o apóstolo Paulo: "É na esperança que somos salvos". O que ganha quem se esforça para roubá-la do homem, fale em nome da Razão, da Natureza ou de algum outro Ente maiúsculo qualquer? E trato da esperança nos dois sentidos possíveis da palavra: o que tenta despertar os homens para a fraternidade universal, com todas as suas implicações morais, e o que acena para a vida eterna. O ladrão de esperanças não leva nada que lhe seja útil e ainda nos torna mais pobres de anseios.

O cristianismo já foi acusado de morbidamente triste, avesso à felicidade e ao prazer de viver, e também de ópio das massas, cobrindo a realidade com o véu de uma fantasia conformista, que as impedia de ver a verdade. Ao pregar o perdão, dizem, é filosofia da tibieza; ao reafirmar a autoridade divina, acusam, é autoritário. Pouco afeito à subversão da autoridade humana, apontam seu servilismo; ao acenar com o reino de Deus, sua ambição desmedida. Em meio a tantos opostos, subsiste como uma promessa, mas também como disciplina vivida, que não foge à luta.

Precisamos do Cristo não porque os homens se esquecem de ter fé, mas porque, com freqüência, eles abandonam a Razão e cedem ao horror. Sem essa certeza, Darfur – a guerra do forte contra o indefeso, da criança contra o fuzil, do bruto contra a mulher –, uma tragédia que o mundo ignora, seria ainda mais insuportável.


REINALDO AZEVEDO

http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/

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  Publicado em 27-10-2008 às 17-34h

SÓ DE SACANAGEM



Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

Elisa Lucinda

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  Publicado em 06-10-2008 às 18-54h

perche é bisogno...



Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu....
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.

Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..
E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão

Fernando Pessoa

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  Publicado em 02-10-2008 às 19-37h

"pertencer é viver..."



Pertencer

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!

Clarice Lispector

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  Publicado em 02-10-2008 às 19-21h

tempo de plantar



O Cântico da Terra

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

Cora Coralina

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  Publicado em 15-08-2008 às 18-24h

SIMPLES ASSIM...!



Talvez seja tão simples, tolo e natural que você nunca tenha parado para pensar: aprenda a fazer bonito o seu amor. Ou fazer o seu amor ser ou ficar bonito. Aprenda, apenas, a tão difícil arte de amar bonito. Gostar é tão fácil que ninguém aceita aprender.

Tenho visto muito amor por aí, Amores mesmo, bravios, gigantescos, descomunais, profundos, sinceros, cheios de entrega, doação e dádiva,mas esbarram na dificuldade de se tornar bonito. Apenas isso: bonitos,belos ou embelezados, tratados com carinho, cuidado e atenção. Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras.

Aí esses amores que são verdadeiros, eternos e descomunais de repente se percebeu ameaçados apenas e tão somente porque não sabem ser bonitos: cobram; exigem; rotinizam; descuidam; reclamam; deixam de compreender;necessitam mais do que oferecem; precisam mais do que atendem; enchem-se de razões. Sim, de razões. Ter razão é o maior perigo no amor.
Quem tem razão sempre se sente no direito (e o tem) de reinvindicar, de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que o que está sem razão talvez passe por um momento de sua vida no qual não possa ter razão. Nem queira. Ter razão é um perigo: em geral enfeia o amor, pois é invocado com justiça mas na hora errada. Amar bonito é saber a hora de ter razão.

Ponha a mão na consciência. Você tem certeza que está fazendo o seu amor bonito?
De que está tirando do gesto, da ação, da reação, do olhar, da saudade, da alegria do encontro, da dor do desencontro, a maior beleza possível? Talvez não. Cheio ou cheia de razões, você espera do amor apenas aquilo que é exigido por suas partes necessitadas, quando talvez dele devesse pouco esperar, para valorizar melhor tudo de bom que de vez em quando ele pode trazer.
Quem espera mais do que isso sofre, e sofrendo deixa de amar bonito. Sofrendo, deixa de ser alegre, igual criança.E sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.


Não tema o romantismo. Derrube as cercas da opinião alheia. Faça coroas de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama. Saia cantando e olhe alegre.
Recomendam-se: encabulamentos; ser pego em flagrante gostando; não se cansar de olhar, e olhar; não atrapalhar a convivência com teorizações; adiar sempre, se possível com beijos, “aquela conversa importante que precisamos ter”, arquivar se possível, as reclamações pela pouca atenção recebida. Para quem ama toda atenção é sempre pouca. Quem ama feio não sabe que pouca atenção pode ser toda atenção possível.Quem ama bonito não gasta o tempo dessa atenção cobrando a que deixou de ter.

Não teorize sobre o amor (deixe isso para nós, pobres escritores que vemos a vida como criança de nariz encostado na vitrine, cheia de brinquedos dos nossos sonhos) :não teorize sobre o amor, ame. Siga o destino dos sentimentos aqui e agora.

Não tenha mêdo exatamente de tudo o que você teme, como: a sinceridade;não dar certo; depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito); abrir o coração;contar a verdade do tamanho do amor que sente.
Jogue pro alto todas as jogadas, estratagemas, golpes, espertezas, atitudes sabidamente eficazes (não é sábio ser sabido): seja apenas você no auge de sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser. Seja você cantando desafinado, mas todas as manhãs. Falando besteiras, mas criando sempre. Gaguejando flores. Sentindo o coração bater como no tempo
do Natal infantil. Revivendo os carinhos que instruiu em criança. Sem mêdo de dizer, eu quero, eu gosto, eu estou com vontade.

Talvez aí você consiga fazer o seu amor bonito, ou fazer bonito o seu amor,ou bonitar fazendo seu amor, ou amar fazendo o seu amor bonito(a ordem das frases não altera o produto), sempre que ele seja a mais verdadeira expressão de tudo o que você é e nunca, deixaram, conseguiu, soube, pôde, foi possível, ser.

Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto. Não se preocupe mais com ele e suas definições. Cuide agora da forma. Cuide da voz. Cuide da fala. Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você. Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor e só assim poder começar a tentar fazer o outro feliz.

Artur da Távola

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  Publicado em 09-08-2008 às 12-39h

NAVEGAR É PRECISO...



Terra Nova do Imigrante
(Jacqueline Salgado)

Entre tantos acenos, partiu a embarcação,
Seguindo os raios de um sol reluzente,
Levando a Itália no coração,
Uma nova vida surgiu de repente.

Aquela paisagem, que coisa mais bela!
Todos queiram ao porto chegar.
Longo era o sonho, longa era a espera
Para aportar na serra do mar.

O primeiro passo desde a partida
No chão que em meio è névoa surgiu,
Aos poucos revela a terra prometida,
A beleza de um sonho chamado Brasil.

Subir a serra, penetrar as entranhas
Daquela paisagem que o verde emoldura.
Sentir a pureza do ar das montanhas,
Contemplar o tempo que a fé assegura.

A alegria da boccia rolando no chão,
O canto dos pássaros com fidalguia
Preservam consigo a tradição,
Com dignidade e maestria!

Oh! Bela terra de recursos naturais,
Onde se planta, do além mar, a cultura.
Onde se firmam templos coloniais,
Onde se colhe prosperidade e fartura.

Estradas que dançam pelo caminho
Por entre distritos abençoados,
Eternizam o café, o queijo, o vinho,
Espalhando ao mundo, o seu legado.

Terra Nova onde uma “Venda havia”.
E onde a vida nos passa lenta...
Salve o povo e sua alegria!
Salve a Festa da Polenta!

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  Publicado em 17-07-2008 às 18-02h

SI NON È VERO È BENE TROVATO...



Jesus e os três ladrões (ou O segundo mandamento)

José Rezende Jr.
O sonho tinha acabado de começar: felizes e impunes, os dois ladrões flutuavam a 100 por hora a bordo do BMW prateado, recém-roubado. Tudo ia bem até pararem no acostamento para fazer xixi. Ou melhor, tudo ia bem até que Mandruvá, cheio de nove-horas, com vergonha do comparsa, resolveu satisfazer as necessidades lá atrás do carro.
"Essa não!", gritou Mandruvá.
"Que foi? Polícia?!", assustou-se Micuim, suspendendo a micção e quase transformando em guilhotina o zíper da calça.
"Pior, muito pior...", murmurou Mandruvá, pálido como nunca.
Micuim, que não percebeu nada estranho, quis saber qual era o problema.
"Não sabe ler, infeliz?!", berrou Mandruvá, apontando o adesivo retangular azul, com letras brancas, pregado no vidro traseiro do BMW: Propriedade do Senhor Jesus.
"E o quê que tem?", desentendeu Micuim.
"Como e o quê que tem?! A gente roubamos o carro de Jesus, tamos de passaporte carimbado pro inferno, tu não tá vendo?!", desesperou-se Mandruvá.
Micuim ficou na dúvida, sem saber se ria ou dava logo uns cascudos no cúmplice, responsável direto pelas manchas circulares que, agora, adornavam a região do em torno, na calça jeans recém-comprada na feira do Guará.
"Pô, Mandruvá! Fala sério!"
"Tô falando sério, Micuim! A gente fomos roubar logo o carro de Deus!", choramingava o ladrão de fé.
Micuim coçou a cabeça. Nem riu, nem encheu Mandruvá de cascudo. Decidiu apelar para a psicologia:
"Deus, Deus, propriamente não: aí diz de Jesus."
"Jesus, Deus, é tudo uma parada só! Tu nunca fez primeira comunhão?"
"Tá, tá, tá. Mas o carango aí pode muito bem ser dum xará de Jesus, pode não?, um sêo Jesus que é pessoa humana que nem nós, só que muito mais rico, ué..."
"Ah é? Ah é? E tu já roubou algum outro carro com nome do dono pregado no vidro: Propriedade do Senhor Alarico; Propriedade do Senhor Donizete? Heim?"
"Tá, mas o cara pode ter pregado aí só pra assustar a gente, não tem uns que botam Polícia Federal só pra espantar ladrão?", insistiu Micuim. "E tem mais, vai ver o cara quer dar uma de joão-sem-braço. Na hora de pagar o IPVA e as multas, ele vai no Detran e joga o 171: ´Este carro não é meu, é do Senhor Jesus, cobra dele´. Tu sacou agora?"
"Sei não, sei não...", hesitou Mandruvá.
"Tu quer saber, Mandruvá? Tô de saco cheio, eu devia ter chamado era o Graúna pra fazer o serviço comigo".
"E por que não chamou?", lamentou-se Mandruvá, num arrependimento de dar dó.
"Por quê? Ah é, tu esqueceu que o Graúna é de cor? Tu acha que a polícia ia deixar passar batido um sujeito de cor pilotando BMW?"
"Pelo amor de Deus, Micuim, não piora as coisas: racismo também é pecado!"
"Ôôôô Mandruvá!... Tu sabe que o Graúna é que nem se fosse meu irmão. Racista é as autoridade: deve estar escrito aí na Constituição dos homens: `Negro a bordo de veículo acima de Palio 1.0 é suspeito´. E olha que já foi pior: antes eles toleravam só até Fusca, Fiat 147 e, estourando, estourando, um Golzinho pé-de-boi..."
"Tá bom, tá bom", acalmou-se Mandruvá. "Eu só quero saber como a gente vamos devolver o carro de Nosso Senhor Jesus Cristo".
"De-vol-ver?! Tu pirou?"
"Se tu quer ir pro inferno, tu vai Micuim, mas vai só!"
"Mandruvá, ôôô Mandruvá, raciocina comigo: este BMW aqui não pode ser de Jesus. E por que não pode? Primeiro: Jesus não era filho de carpinteiro? Era. Segundo: a Bíblia diz que Jesus se deu bem? ganhou na loteria? ficou rico? Não. Pois então: como é que Jesus, que não nasceu em berço de ouro, ia arrumar essa grana toda pra comprar carro importado? Heim?"
Mandruvá pensou, pensou....
"Ia ser enriquecimento ilícito?", perguntou, quase concordando.
"Só ia. E se o Imposto de Renda pegasse ele na malha fina, Jesus puxava uma cadeia federal, Deus que me perdoe", arrematou Micuim, fazendo o nome do pai.
"Mas peraí", insistiu Mandruvá. "E se Jesus comprou um Fusquinha 68 e fez um milagre e transformou o Fusquinha em BMW, que nem naquela festa quando a birita acabou e ele fez a água virar pinga?"
"Foi água em vinho, mané! Tu quer saber? Ficaí rezando que eu vou dar um rolé com o meu BMW, falô?", perdeu a paciência Micuim.
Para encurtar o debate filosófico-teológico, que durou mais umas meia-horas: os dois ladrões chegaram a um acordo. Decidiram dar umas voltas no BMW, esticar até um pagode no Pedregal e, na manhã seguinte, largar o carrão numa igreja qualquer.
Dito e feito: Micuim e Mandruvá passearam felizes, descolaram umas gatinhas no pagode, pecaram contra a castidade no estofamento de pele de zebra do possante, e, de manhãzinha, estacionaram o BMW perto da Assembléia de Deus do Paranoá, debaixo da placa "Jesus vem".
E Jesus veio. Quer dizer, o proprietário, que tinha barba e cabelo bem cortados, usava terno Hugo Boss, não pagava imposto e não se chamava Jesus, veio, cercado de seguranças de paletó azul-marinho. Era hora do almoço quando ele reencontrou o BMW pródigo. Ajoelhado em cima do exemplar de assinante da Veja, o proprietário limpou com lenço de linho e monograma o capô prateado, conspurcado pelos ímpios. Em seguida, ignorou a lata de lixo e jogou no chão o adesivo Propriedade do Senhor Jesus, e botou outro no lugar: Polícia Federal. Já ia embora quando, por garantia, sacou um segundo adesivo da pasta de couro de jacaré e pregou no vidro à prova de bala: Esquadrão da Morte, bem ao lado de um outro, azul, que tinha passado despercebido aos dois ladrões: Se DeuZ é por nós, quem será contra nós?, sendo o Z da palavra DeuZ igualzinho ao da propaganda do RoriZ.


José Rezende Jr. é jornalista há mais de 25 anos. Vive em Brasília desde 1987, tendo atuado como repórter especial no Jornal do Brasil, IstoÉ, O Globo e Correio Braziliense.

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  Publicado em 23-06-2008 às 17-57h

SI NON È VERO È BENE TROVATO...



A MULHER E O SIGNO - VINÍCIUS DE MORAIS



CÂNCER
De 21 de Junho a 21 de Julho

Você Nunca avance
Em mulher de Câncer.

Seu Planeta é a Lua
E a Lua, é sabido
Só vive na sua.
É muito apegada
E quando pegada
Pega da pesada.

É mulher que ama
Com muito saber
No tocante á cama
Não sei lhe dizer ...


******** *******


LEÃO

De 22 de julho a 22 de agosto

A mulher de Leão
Brilha na escuridão.

A mulher de Leão,mesmo sem fome
Pega , mata e come.

A mulher de Leão não tem perdão

As mulheres de Leão
Leoas são.

Poeta, operário, capitão
Cuidado com a mulher de Leão !

São ciumentas e antagônicas
Solares e dominicais
Ígneas, áureas e sardônicas
E muito, muito liberais.


******** ********


VIRGEM
De 23 de agosto a 22 de setembro

Se Florence Nightingale era Virgem
Não sei ... mas o mal é de origem.

A mulher de Virgem aceita a amante
Isto é : desde que não a suplante.

Sexo de consumo , pães-de-minuto
Nada disso lhe há de faltar
O condomínio é absoluto
A Virgem é mulher do lar.

Opala , safira , turquesa
São suas pedras astrais
Na cuca , muita esperteza
Na existência , muita paz.

******* *******


LIBRA
De 23 de setembro a 22 de outubro

A mulher de Libra
Não tem muita fibra
Mas vibra.

Quer ver uma libriana contente ?
Dê-lhe um presente.

Quando o marido a trai
A mulher de Libra
Balança mas não cai.

Se você a paparica
Ela fica.

Com librium ou sem librium
Salve, venusiana
Que guarda o equilíbrio
Na corda mais fina.

******* ********

ESCORPIÃO
De 23 de outubro a 21 de novembro

Mulher de Escorpião
Comigo não !
É a Abelha Mestra
É a Viúva Negra
Só vai de vedete
Nunca de extra.
Cria o chamado conflito
De personalidades.
É mãe tirana
Mulher tirana
Irmã tirana
Filha tirana
Neta tirana
Tirana tirana.
Agora, de cama diz
Que é boa paca.

******** ********

SAGITÁRIO
De 22 de novembro a 21 de dezembro


As mulheres Sagitarianas
São abnegadas e bacanas
Mas não lhe venham com grossuras
Nem injustiças ou censuras
Porque ela custa mas se esquenta
E pode ser muito violenta.
Aí , o homem que se cuide ...
Também, quem gosta de censura !


******** ********

CAPRICÓRNIO
De 22 de dezembro a 20 e janeiro

A Capricorniana é capricornial
Como a cabra de João Cabral.
Eu amo a mulher de Capricórnio
Porque ela nunca lhe põe os próprios.

A caprina é tão ciumenta
Qua até ciúmes ela inventa.
Mulher fiel está aí : é cabra
Só que com muito abracadabra.

Suas flores : a papoula e o cânhamo
De onde vêm o ópio e a maconha
Ela é uma curtição medonha
Por isto nos capricorniamos.


******** *********

AQUÁRIO
De 21 de janeiro a 19 de fevereiro

Se o que se quer é a boa esposa
A aquariana pousa.

Se o que se quer é uma outra coisa
A aquariana ousa.

Se o que se quer é muito amor
A aquariana
É mulher macho sim senhor.

Porém não são possessivas
Nem procuram dominar
Ou são meigas e passivas
Ou botam para quebrar .

******** *********

PEIXES
De 20 de fevereiro a 20 de março

Mulher de Peixe ... peixe é
Em águas paradas não dá pé
Porque desliza como enguia
Sempre que entra numa fria.
Na superfície é sinhazinha
E festiva como a sardinha
Mas quando fisga um namorado
Ele está frito, escabechado.
É uma mulher tão envolvente
Que na questão do Paraíso
Há quem suspeite seriamente
Que ela era mulher e a serpente .
Seu Id : aparentar juízo
Seu Ego : a omissão, o orgulho
Sua pedra astral : a ametista
Seu bem : nunca ser bagulho
Sua cor : o amarelo brilhante
Seu fim : dar sempre na vista .

******** **********

ÁRIES
De 21 de março a 20 de abril

Branca, preta ou amarela
A ariana zela.

Tem caráter dominador
Mas pode ser convencida
E aí, então , fica uma flor:
Cordata ... e nada convencida.

Porque o seu denominador
É o amor.
Eu cá por mim não tenho nenhum
Preconceito racial :
Mas sou ariano !

******** *********

TOURO
De 21 de abril a 20 de maio

O que é que brilha sem
Ser ouro ? – A mulher de Touro !
É a companheira perfeita
Quando levanta ou quando deita.
Mas é mulher exclusivista/Se não tem tudo, faz a pista.
Depois, que dona-de-casa ...
E à noite ainda manda brasa.
Sua virtude : a paciência
Seu dia bom : a sexta-feira
Sua cor propícia : o verde
As flores dos seus pendores :
Rosa , flor de macieira.


******** ********

GÊMEOS
De 21 de maio a 20 de junho

A mulher de Gêmeos
Não sabe o que quer
Mas tirante isso
É boa mulher.

A mulher de Gêmeos
Não sabe o que diz
Mas tirante isso
Faz o homem feliz .

A mulher de Gêmeos
Não sabe o que faz
Mas por isso mesmo
É boa demais ...
******** *********
COLABORAÇÃO: DUDA ZANDONADI

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  Publicado em 02-06-2008 às 19-01h

...Piano piano se va a lontanno...



Ah! Se vendessem paciência nas farmácias e supermercados... Muita gente iria
gastar boa parte do salário nessa mercadoria tão rara hoje em dia.
Por muito pouco a madame que parece uma "lady" solta palavrões e berros que
lembram as antigas "trabalhadoras do cais"... E o bem comportado executivo?
O "cavalheiro" se transforma numa "besta selvagem" no trânsito que ele mesmo
ajuda a tumultuar...
Os filhos atrapalham, os idosos incomodam, a voz da vizinha é um tormento, o
jeito do chefe é demais para sua cabeça, a esposa virou uma chata, o marido
uma "mala sem alça". Aquela velha amiga uma "alça sem mala", o emprego uma
tortura, a escola uma chatice.
O cinema se arrasta, o teatro nem pensar, até o passeio virou novela.
Outro dia, vi um jovem reclamando que o banco dele pela internet estava
demorando a dar o saldo, eu me lembrei da fila dos bancos e balancei a
cabeça, inconformado...
Vi uma moça abrindo um e-mail com um texto maravilhoso e ela deletou sem
sequer ler o título, dizendo que era longo demais.
Pobres de nós, meninos e meninas sem paciência, sem tempo para a vida, sem
tempo para Deus.
A paciência está em falta no mercado, e pelo jeito, a paciência sintética
dos calmantes está cada vez mais em alta.
Pergunte para alguém, que você saiba que é "ansioso demais" onde ele quer
chegar?
Qual é a finalidade de sua vida?
Surpreenda-se com a falta de metas, com o vago de sua resposta.
E você?
Onde você quer chegar?
Está correndo tanto para quê?
Por quem?
Seu coração vai agüentar?
Se você morrer hoje de infarto agudo do miocárdio o mundo vai parar?
A empresa que você trabalha vai acabar?
As pessoas que você ama vão parar?
Será que você conseguiu ler até aqui?
Respire... Acalme-se...
O mundo está apenas na sua primeira volta e, com certeza, no final do dia
vai completar o seu giro ao redor do sol, com ou sem a sua paciência...

NÃO SOMOS SERES HUMANOS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL...

SOMOS SERES ESPIRITUAIS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA HUMANA...

Paulo Roberto Gaefke

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  Publicado em 26-05-2008 às 11-31h

o mundo no seu mouse

www.radios.com.br

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  Publicado em 14-05-2008 às 19-28h

"... LA VÁ QUE LA BRUSA..."



“MANTER ACESA A CHAMA...”

A Comenda do Imigrante Padre Cleto Caliman, instituída pela Câmara Municipal de Venda Nova do Imigrante, avivou o “ jeito de ser do nosso município”. E qual seria esse jeito? Lembro de um bordão que os radialistas da cidade de São Paulo comumente usavam: “SP não pode parar”. Chegando aqui ouvi o saudoso Padre Cleto dizer:”La vá que la brusa!” equivale ao popular:”vai que vai!”
O trinômio: trabalho, fé e festa , que os primeiros imigrantes trouxeram , gerou a solidariedade, o famoso voluntariado. Os imigrantes continuaram a chegar e hoje VNI está celebrando vinte anos de emancipação com claros sinais que valores pilares da comunidade estão esmorecendo.
O poeta Caetano Veloso, na música Sampa, tem um verso que diz”...a grana que constrói e destrói coisas belas...” É preciso dar um passo à frente,voltando e recuperando esse nosso jeito de ser. O poder público como fomentador do progresso, parece se encaixar no famoso:”la vá que la brusa”. A comunidade deve ser geradora do desenvolvimento e do progresso. È possível no mundo globalizado resistir ao famoso desconstrutivismo? Com a palavra, os líderes formadores de opinião, educadores,políticos... Venda Nova não pode parar ,sempre construindo coisas belas!!!

Chico Zandonadi

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  Publicado em 02-05-2008 às 17-23h

Fin pecá bisonho morire un giorno...



Canção das mulheres

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ´´Olha que estou tendo muita paciência com você!´´

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.

Lya Luft

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  Publicado em 02-05-2008 às 17-11h

tuti i giorni...



CANÇÃO DOS HOMENS

Que quando chego do trabalho ela largue por um instante o que estiver fazendo
- filho, panela ou computador - e venha me dar um beijo como os de antigamente.

Que quando nos sentarmos à mesa para jantar
ela não desfie a ladainha dos seus dissabores domésticos.

E se for uma profissional, que divida comigo o tempo de comentarmos nosso dia.

Que se estou cansado demais para fazer amor,
ela não ironize nem diga que "até que durou muito" o meu desejo ou potência.

Que quando quero fazer amor ela não se recuse demasiadas vezes, nem fique impaciente ou rígida, mas cálida como foi anos atrás.

Que não tire nosso bebê dos meus braços dizendo que homem não tem jeito pra isso, ou que não sei segurar a cabecinha dele, mas me ensine docemente se eu não souber.

Que ela nunca se interponha entre mim e as crianças, mas sirva de ponte entre nós quando me distancio ou me distraio demais.

Que ela não me humilhe porque estou ficando calvo ou barrigudo, nem comente nossas intimidades com as amigas, como tantas mulheres fazem.

Que quando conto uma piada para ela ou na frente de outros, ela não faça um gesto de enfado dizendo "Essa você já me contou umas mil vezes".

Que ela consiga perceber quando estou preocupado com trabalho, e seja calmamente carinhosa, sem me pressionar para relatar tudo, nem suspeitar de que já não gosto dela.

Que quando preciso ficar um pouco quieto ela não insista o tempo todo para que eu fale ou a escute, como se silêncio fosse falta de amor.

Que quando estou com pouco dinheiro ela não me acuse de ter desperdiçado com bobagens em lugar de prover minha família.

Que quando eu saio para o trabalho de manhã ela se despeça com alegria, sabendo que mesmo de longe eu continuo pensando nela.

Que quando estou trabalhando ela não telefone a toda hora para cobrar alguma coisa que esqueci de fazer ou não tive tempo.

Que não se insinue com minha secretária ou colega para descobrir se tenho amante.

Que com ela eu também possa ter momentos de fraqueza e de ternura, me desarmar, me desnudar de alma, sem medo de ser criticado ou censurado: que ela seja minha parceira, não minha dependente nem meu juiz.

Que cuide um pouco de mim como minha mulher, mas não como se eu fosse uma criança tola e ela a mãe, a mãe onipotente, que não me transforme em filho.

Que mesmo com o tempo, os trabalhos, os sofrimentos e o peso do cotidiano, ela não perca o jeito terno e divertido que tanto me encantou quando a vi pela primeira vez.

Que eu não sinta que me tornei desinteressante ou banal para ela, como se só os filhos e as vizinhas merecessem sua atenção e alegria.

E que se erro, falho, esqueço, me distancio, me fecho demais, ou a machuco consciente ou inconscientemente,

Ela saiba me chamar de volta com aquela ternura que só nela eu descobri, e desejei que não se perdesse nunca, mas me contagiasse e me tornasse mais feliz, menos solitário, e muito mais humano.

Lya Luft

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  Publicado em 30-04-2008 às 19-25h

dopo i trenta...



Arnaldo Jabor para as mulheres com mais de 30

Isto é para as mulheres de 30 anos pra cima…
E para todas aquelas que estão entrando nos 30,
e para todas aquelas que estão com medo de entrar nos 30…
E para homens que têm medo de meninas com mais de 30!!!
“ A medida que envelheço, e convivo com outras,
valorizo mais as mulheres que estão acima dos 30.
Estas são algumas razões do porquê:
- Uma mulher de 30 nunca o acordará
no meio da noite para perguntar: “O que você está pensando?”
Ela não se importa com o que você está pensa,
mas se dispõe de coração se você tiver intenção de conversar.
- Se a mulher de 30 não quer assistir ao jogo, ela não fica
à sua volta resmungando.
Ela faz alguma coisa que queira fazer.
E, geralmente è alguma coisa bem mais interessante.
- Uma mulher de 30 se conhece o suficiente
para saber quem é, o que quer e quem quer.
Poucas mulheres de 30 se incomodam com
o que você pensa dela ou sobre o que ela esta fazendo.
- Mulheres dos 30 são honradas.
Elas raramente brigam aos gritos com
você durante a ópera ou no meio de um
restaurante caro. É claro, que se você merecer,
elas não hesitarão em atirar em você, mas só
se ainda sim elas acharem que poderão se
safar impunes.
- Uma mulher de 30 tem total confiança
em si para apresentar-te para suas melhores amigas.
Uma mulher mais nova com um homem tende a
ignorar mesmo sua melhor amiga porque ela
não confia no cara com outra mulher.
E falo por experiência própria. Não se fica
com quem não confia, vivendo e aprendendo né???
- Mulheres se tornam psicanalistas quando envelhecem.
Você nunca precisa confessar seus pecados
para uma mulher de 30. Elas sempre sabem….
- Uma mulher com mais de 30 fica linda usando
batom vermelho. O mesmo não ocorre com
mulheres mais jovens.
- Mulheres mais velhas são diretas e honestas.
Elas te dirão na cara se você for um idiota,
se você estiver agindo como um!
- Você nunca precisa se preocupar onde se
encaixa na vida dela. Basta agir como homem,
e o resto deixe que ela faça;.
- Sim, nós admiramos as mulheres com mais
de 30 por um “sem” números de razões.
Infelizmente, isso não é recíproco.
Para cada mulher de mais de 30, estonteante,
inteligente, bem apanhada e sexy,
existe um careca, velho, pançudo em
calças amarelas bancando o bobo para
uma garçonete de 22 anos.
Senhoras, EU PEÇO DESCULPAS:
Para todos os homens que dizem,
“porque comprar uma vaca se você pode
beber o leite de graça?”, aqui está a novidade para vocês:
Hoje em dia 80% das mulheres são contra
o casamento, sabe por quê?
Porque as mulheres perceberam que
não vale a pena comprara um porco inteiro
só para ter uma lingüiça. Nada mais justo.”

Arnaldo Jabor

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  Publicado em 28-04-2008 às 17-45h

dopo i quaranta...



Canção na plenitude

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft

O texto acima foi extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.

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