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05.02.2016


Da lama à poeira: o drama de quem trafega pelas rodovias ES-379 e ES-165

Rodovias estão em péssimo estado de conservação e, quando chove, é praticamente impossível vencer o trecho de 32 quilômetros entre Muniz Freire e Castelo

 

 

 

 

Fernanda Zandonadi

 

Viajar de Muniz Freire a Castelo, pelas ES-379 e ES-165 é uma aventura. As estradas estão mal cuidadas, sem pavimentação ou qualquer sinalização para os aventureiros de plantão.  A ES-379 já deveria estar asfaltada e com as obras concluídas. O orçamento era de R$ 52 milhões mas, desde meados de 2015, não há um só caminhão ou trator trabalhando no local. Está tudo parado por falta de dinheiro. 

 

A estrada é uma importante via para escoamento da produção local, além de rota turística, já que os visitantes podem utilizar o trecho como atalho para as praias do Sul do Espírito Santo. Para dar uma ideia da economia de combustível e tempo, de Muniz Freire a Castelo pelas ES-379 e ES-165 são 32 quilômetros. Já pelo desvio mais longo, que passa pelo trevo de Alegre, são aproximadamente 100 quilômetros de estrada. Além de facilitar a vida de quem precisa ir de uma cidade a outra, a pavimentação das vias fomentaria o turismo no local, que guarda belas cachoeiras e lindos recantos para os apaixonados pela natureza.

 

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Há 180 buracos no meio do caminho

 

Quem mora nas margens das estradas, sabe que há problema faça chuva, faça sol. Quando chove, o barro toma conta de tudo, muitas vezes impossibilitando as viagens até para os motoristas mais ousados. "Já apareceram vários trilheiros 'perdidos' aqui na frente de casa. Não sabiam para onde ir, nem o GPS ajudou. Eu sempre falo: voltem e passem por Conceição, que por aqui não dá para passar não", diz o lavrador e morador, há 30 anos, do povoado de Monte Vênus, Osmar Zavarize Ribeiro.  "São 30 anos de promessas", desabafa o senhor, apontando para a estrada.

 

 

Monte Vênus fica no entroncamento entre as ES-165 e ES-379. De um lado, a estrada vai para Muniz Freire. Do outro, pela ES-165, chega-se a Castelo. Atravessando a ponte, ainda na ES-165, o destino é Conceição do Castelo. Um lugarejo parado no tempo e cheio de poeira, que ostenta as placas indicando as obras na ES-379, também já tomadas pela terra fina.  "Quando vê que está muito ruim, a prefeitura vem e passa o trator, para melhorar um pouco. Mas não tem muita solução", diz a esposa do lavrador, a servente escolar Édima Secchin.

 

 

Se há pouco tempo tinha muita lama na estrada, hoje o sofrimento vem com a poeira. A Prefeitura de Muniz Freire, por conta própria, mandou um tratorista terraplenar o trecho entre Monte Vênus até a cidade. Mas, segundo o chefe de gabinete da Prefeitura de Muniz Freire, Wilson Santos Filho, a rodovia é estadual, portanto, o município não pode interceder nas obras.

 

 

"Houve a primeira licitação, quando a Construtora Roma ganhou. E começaram as obras. O contrato foi reincidido e, na segunda licitação, ganhou a Contractor, que reiniciou as obras. Até meados de 2015, os trabalhos estavam andando, mas foram suspensos. Até mesmo os equipamentos foram tirados do local. Não podemos fazer nada. Demos um paliativo à comunidade, que foi tirar os buracos com a terraplenagem. Mas não nos resta outra coisa senão esperar", explica.

 

 

Em nota, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-ES) informou "que as obras de pavimentação nos trechos Muniz Freire – Morro Vênus (ES 379) e Morro Vênus – Castelo (ES 165) foram paralisadas em 2014, por falta de recursos. Por prudência, ainda não é possível estipular uma data para o reinício das mesmas. O DER-ES informa, ainda, que mantém equipes em toda a malha rodoviária estadual, realizando, por exemplo, o serviço de capina".

 

Escolas de portas fechadas

 

Saindo de Monte Vênus, uns dez quilômetros adiante pela ES-379, chega-se ao povoado de Vieira Machado. O lugarejo fica  13 quilômetros distante de Muniz Freire. Cortada pela ES-379, os moradores ficam reféns dos dias de sol para ir e vir pela estrada. Quando nossa equipe de reportagem foi ao local, a prefeitura tinha enviado uma máquina para melhorar a rodovia, que até então estava intransitável por conta das chuvas e pela falta de manutenção.  Agora a estrada está lisa e, se não chover, é possível andar sem problemas até a sede do município, apesar da poeira densa  que se forma pelo caminho. Uma chuva mais forte, no entanto, pode deixar intransitável a estrada íngreme, com várias crateras e pedras pelo caminho.

 

Mas o drama do lugarejo vai além. Vieira Machado ficou conhecida nacionalmente quando uma de suas escolas ficou em segundo lugar no Enem 2015 entre aquelas com alunos de nível socioeconômico baixo. "Saiu reportagem em vários jornais, como a Folha de São Paulo e Zero Hora. Eles até vieram aqui para fazer matéria", conta, orgulhosa, a ex-coordenadora da escola, Maria Luciana Soares Zuim. 

 

 

A escola era pequena, tinha cerca de 40 alunos estudando no período da noite, a maioria filhos de agricultores que trabalham na roça o dia inteiro e tiram um tempo para os livros depois da lida na lavoura. "Temos alunos que andam cinco, dez quilômetros para chegar aqui na escola. E não é um caminho fácil. São estradas íngremes. Mas eles são dedicados e estão estudando", conta.

 

Antes da criação do curso, os alunos tinham que se deslocar até a sede, em Muniz Freire. E a situação parece que vai se repetir. "Em novembro do ano passado, um dia antes de começarem as rematrículas dos alunos, recebemos a notícia da superintendência de Educação de que não teríamos mais as aulas no período da noite. A ideia é levar esses alunos de volta à sede do município para estudar. Pelo que vejo e pelo que os pais falam, poucos vão continuar estudando nessas condições. Além disso, hoje a estrada está até boa, mas e quando começar a chover?", questiona a coordenadora.

 

 

Além  de Vieira Machado, outras duas comunidades perderão as aulas do ensino médio: os povoados de Menino Jesus e Itaici.  "Está uma discussão na cidade. Hoje (04/02), há umas 300 pessoas em protesto aqui nas ruas do município pedindo para que não fechem as escolas", revela o chefe de gabinete da Prefeitura de Muniz Freire, Wilson Santos Filho.

 

Os alunos também estão reticentes em mudar de escola. As irmãs Eliete e Eliane Soares Sena contam que os projetos educacionais ajudavam não apenas os alunos, mas a toda a comunidade. "Vai fazer muita falta. Fazíamos projetos sociais que apresentávamos aos nossos pais no final dos semestres. Era uma forma de todo mundo participar, todo mundo ficar próximo. E vai acabar", relata, com tristeza, Eliane, que aos 16 anos cursará o 3º ano do Ensino Médio.

 

 

"Fomos muito bem nos exames. É uma escola rural, pequena, mas que nos dá muita base. Conhecemos os professores, tiramos dúvidas, conversamos. É muito bom. Sempre estudei aqui e sentirei muito em ter que ir para uma escola maior", desabafa Eliete, que tem 17 anos e fará o 2º ano do Ensino Médio.

 

Em nota, a Secretaria de Estado da Educação informou que a Superintendente Regional de Educação de Guaçuí, Sayonara Toledo, responsável pelas unidades escolares de Muniz Freire, disse que "devido as escolas Judith Viana Guedes, Menino Jesus e Profª. Maria Candido Kneipp funcionarem em prédios da prefeitura municipal, sem espaço adequado para atender os estudantes do Ensino Médio e a baixa procura por matrículas para 2016, foi realizada uma reunião com a comunidade e as famílias onde foi conversado sobre a possibilidade de transferência dos estudantes para as Escolas Bráulio Franco e Lia Terezinha Merçon Rocha, que ficam entre 12 e 19 km das localidades, sendo garantido o transporte escolar e melhores condições pedagógica aos alunos".

 

Fotos: Fernanda Zandonadi/Rádio FMZ

 

 

 

 

 

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