Saúde

A luta para manter o hospital funcionando 24h

* Leandro Fidelis

(leandro@radiofmz.com.br)

A saúde é um direito de todos, e o Hospital Padre Máximo- HPM, em Venda Nova do Imigrante, sabe bem disso. Vinte e quatro horas por dia, a instituição atende a pacientes de todo o município, região e estados (basta lembrar das vítimas da BR-262) que, na maioria das vezes, desconhece quanto custa para uma entidade filantrópica salvar uma vida.

A medicina é uma área cara em todo o país. Na matemática de todo mês do hospital, se contrapõem o alto custo com a folha de pagamento e os valores do Sistema Único de Saúde- SUS há mais de 14 anos sem reajustes. Só para se ter uma ideia, a dificuldade de se contratar plantonistas é porque ninguém aceita trabalhar com base nessa tabela. Sem contar a luta para trazer médicos especializados, já que esses preferem os grandes centros ao interior.

As despesas variam conforme os procedimentos médicos, enquanto a receita, salvos alguns repasses fixos e convênios, na maioria das vezes apenas cobre o que se gasta. São R$ 80 mil de subvenção mensal da municipalidade, uma média de R$ 90 mil do SUS, entre outras receitas geradas pela internação e atendimento no particular e convênio com a Unimed.

Prestes a virar referência em urgência e emergência de média complexidade adulto e infantil, maternidade e cirurgias eletivas, o HPM está com uma demanda crescente e realizando atendimentos cada vez mais complexos. Só em novembro de 2010, último mês de balanço fechado, o hospital fez 2.730 atendimentos na portaria. “Há meses que chegam a 3.000”, ressalta a presidente do Padre Máximo, Eunice Caliman.

Desses pacientes, 2.007 eram moradores de Venda Nova, contra 723 dos municípios do entorno, como Domingos Martins, Afonso Cláudio, Conceição do Castelo e Brejetuba. Isso demonstra que, mesmo nos municípios com hospital, com exceção do último, os moradores ainda recorrem ao Padre Máximo.

Quanto mais tempo, mais gasto

O custo de um paciente varia dependendo do diagnóstico e do tempo de internação. Num dos casos que melhor ilustram a alta despesa do hospital, uma mulher com problemas pulmonares chegou a ficar um mês internada, e a conta, de R$ 5.922,00, teve apenas R$ 865,91 cobertos pelo SUS.

“O hospital acolheu a paciente sem dar importância ao percentual que o SUS iria arcar. Sempre assumimos o que passa do valor. O nosso hospital está sempre aberto, por isso a imensa procura”, diz a presidente.

Quando começou a se falar em crise, em 2010 veio o tão aguardado apoio do governo estadual que, segundo Eunice, ajudou a equilibrar as contas. Os R$ 500 mil para custeio, depositados em julho, saldaram despesas com material e medicamentos, energia, água, entre outros custos fixos.

Outras entradas também amenizaram as dificuldades nos últimos meses de 2010: um repasse de R$ 200 mil aprovado pela Câmara e R$ 85.500 oriundos da 32ª Festa da Polenta, aprovados em assembleia.

Voluntariado faz a diferença

A crise da saúde é nacional, reflete nos hospitais da região, mas o voluntariado faz a diferença no Hospital Padre Máximo. A dedicação das Voluntárias Pró-Hospital Padre Máximo, por exemplo, garante rouparia e doações de produtos e equipamentos ao longo do ano. Com a produção e a venda dos artesanatos, a entidade gerou mais de R$ 25 mil em doações para o hospital em 2010.

Entre os itens doados estão travesseiros, materiais cirúrgicos, utensílios para a cozinha, cobertores, cadeiras, pratos e bandejas descartáveis, freezer, refeições para mães carentes, estante de metal e cadeiras.

Eunice acrescenta que 30% dos gastos são pagos com doações, não apenas das voluntárias, como também de produtores rurais e comércio local.

Outro apoio muito bem vindo é o do Instituto Solidário que, além de prestar assessoria técnica, está empenhado em trazer mais recursos para o Padre Máximo.

Triagem vai direcionar atendimentos

O ano de 2011 marcará uma série de mudanças no Hospital Padre Máximo- HPM. Além da reestruturação física bancada pelo Estado para integrar a rede dos hospitais filantrópicos, um convênio com a Secretaria de Estado da Saúde garantiu três plantonistas, sendo um obstetra, um pediatra e um clínico geral, a partir deste mês no pronto-socorro.

A expectativa da direção do hospital é preparar a equipe para não tornar esses profissionais reféns do atendimento diário no pronto-socorro. “Ter mais plantonistas é uma segurança para acolher bem e estabilizar os pacientes. Estamos muito preocupados com o aumento da demanda”, enfatiza Núbia Cipriano, superintendente do HPM.

Dentro do projeto de reestruturação, será implantado o programa de triagem, que vai direcionar melhor os atendimentos. Hoje, muitas pessoas querem se consultar no hospital em casos que não são de urgência e emergência, quando o posto de saúde está a poucos metros.

Unidade de Saúde pode atender à noite

A secretaria de Saúde de Venda Nova enfrenta dificuldade para orientar a população quanto ao correto uso dos serviços de saúde no município. De acordo com a secretária, Leiliane Scheidegger, apesar do avanço do SUS na atenção primária, muitas pessoas não se preocupam na prevenção das doenças.

“Não adotam métodos mais saudáveis, e mais ainda, não procuram as unidades básicas de saúde. Assim, quando precisam vão direto ao hospital”, diz a secretária.

Em 2011, a Prefeitura irá implantar 100% de cobertura do programa Saúde da Familia no município com a construção das unidades dos bairros Minete e Vila da Mata. Em cada unidade, haverá uma equipe formada por médico, enfermeiro, dentista e auxiliar de enfermagem, que irão desenvolver ações preventivas como controle da hipertensão, do diabetes, assistência a gestantes, crianças, adultos e adolescentes, saúde mental e bucal.

“O cuidado hospitalar é muito mais caro. As pessoas têm que saber procurar esse atendimento somente em casos de urgência e emergência. Antes de ir para o hospital, o morador deve recorrer ao enfermeiro responsável pela unidade para receber orientação e, se necessário, ser atendido no mesmo dia, conforme triagem da enfermagem”, completa Leiliane.

Até os anos 80, ainda segundo a secretária, o Brasil vivia um sistema de saúde voltado exclusivamente para atenção hospitalar. Com isso, muitas pessoas ainda têm o hábito de procurar o hospital mais próximo.

Diante dessa situação, a Secretaria Municipal de Saúde já estuda horários diferenciados para atendimentos noturnos para quem tem dificuldade de ir à Unidade de Saúde central durante o dia. De acordo com Leiliane, o horário seria votado para trabalhadores, com a realização de exames médicos, ginecológicos, vacinação e orientações em geral.

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