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Seu Felício e seus 2 mil terços

* Leandro Fidelis

(leandro@radiofmz.com.br)

 

Sementes de pêssego, açaí e até caroços de azeitona. Nas mãos do pedreiro aposentado Feliciano Bozzi, o popular “Felício”, de 76 anos, isso tudo é matéria-prima para produzir terços católicos, um ofício que esse morador de Venda Nova do Imigrante desenvolveu como passatempo há dez anos.

 

Há 14 anos, a surdez total no ouvido esquerdo o impediu de continuar trabalhando nas construções. Em casa, sem ter ocupação, pegou um alicate e começou a aproveitar os caroços de todas as frutas e azeitonas consumidos pela família para fazer os terços.

 

Com a ajuda da mulher, Mercedes Crevelari, 66, Seu Felício segue um ritual para deixar sementes e caroços no ponto para a confecção dos terços. Primeiro, limpa a matéria-prima. Depois peneira, deixa de molho na água com soda cáustica por dez dias, lava as sementes dentro de um saco de nylon em um tanque elétrico, as seca e só por último passa verniz.

 

Seu Felício escolheu fazer terços devido à forte religiosidade de todos da família. Todo dia pela manhã, ele e a mulher vão à igreja e, nas quartas-feiras à noite, o casal reúne os nove filhos e 22 netos para rezar o terço na sua casa. "Não é rezar que nos leva para o céu. Devemos saber apenas o gosto de Deus, independente da religião."

 

A tradição de rezar às quartas-feiras começou quando Seu Felício ainda era criança. Mesmo depois de casado e com filhos, decidiu manter esse costume. "Quarta é um dia livre para a minha família. Rezar demais faz mal, é gula, mas uma vez por semana é bom".

 

O aposentado calcula ter feito mais de 2.000 terços, sem nunca ter vendido uma unidade sequer. Em um cômodo que funciona como oficina, são 733 terços pendurados, feitos com os mais diversos materiais, e mais 200 dentro de casa. Ele nunca calculou quantas sementes já usou pra fazer os terços.

 

Além das sementes, Felício aproveita bolinhas do interior de garrafas de bebidas destiladas, que se transformam em belíssimos terços. O curioso é que o aposentado usa uma furadeira com uma broca bem minúscula para furar as sementes.

 

Os terços são apenas uma distração para o aposentado, que nunca vendeu nenhuma unidade. Ele diz gostar de presentear as pessoas com os seus terços, principalmente aos 13 dias de cada mês, quando os leva para benzer no Santuário de Aracuí, em Castelo, no Sul do Estado, dedicado à Nossa Senhora da Rosa Mística. É sucesso garantido.

 

Seu Felício frequenta o local há muitos anos. A escolha do dia 13 é porque os devotos atribuem a esse dia a primeira aparição da santa no local, em 1994. "Não vou lá para ver Nossa Senhora, apenas acho o santuário um lugar bom", diz.

 

A filha Aparecida Bozzi é uma que sempre presenteia os amigos com os terços feitos pelo pai. “No Norte do Estado, vários desses terços já foram espalhados. Todo mundo gosta.”

 

É de lá, inclusive, que vêm as sementes de açaí, material mais abundante no trabalho do aposentado e o que dá mais trabalho de preparar, segundo ele. "Providenciei um pilão para tirar a casca do açaí, que é bem dura e difícil de sair."

 

Feliciano Bozzi ainda pretende fazer um terço com restos de granito, mas reconhece a dificuldade de ter os equipamentos para tal tarefa.

Aposentado sonha em presentear Roberto Carlos com um terço

 

Em suas peregrinações ao Santuário de Aracuí, em Castelo, no Sul do Estado, Seu Felício Bozzi viu o seu ídolo Roberto Carlos de perto, mas teve vergonha de se aproximar e lhe dar um terço. “Só gosto de ver os artistas, mas o contato mais próximo me intimida. Gostaria muito de dar um dos meus terços ao Roberto Carlos”, diz o aposentado.

 

Chamada pelos fiéis de Imaculada Esposa do Espírito Santo de Deus, a Santa atraiu o cantor Roberto Carlos, que recorreu ao local em busca de cura para sua esposa Maria Rita, que enfrentava um câncer. Ele esteve no local nos dias 13 de maio e 13 de agosto de 1999.

 

Devido à idade avançada, o aposentado diz achar difícil ir ao encontro de Roberto Carlos e só vê oportunidade de estar com ele pessoalmente para lhe dar um terço se o cantor viesse a Venda Nova do Imigrante um dia.

Fama de curandeiro para casos de soluço

 

Há uma crendice em Venda Nova do Imigrante que Seu Felício é curandeiro para casos de soluço. Segundo ele, a família Zandonade, também de origem italiana, foi a responsável em espalhar os seus "poderes". E o mais curioso é que o aposentado não consegue controlar o próprio soluço.

 

Seu Felício se diverte ao relatar como tudo começou. "Estava na companhia do Evaldo Zandonade e dos seus dois filhos, ainda pequenos, quando um deles começou a soluçar sem parar. Só olhei para o menino e disse: 'Não gosto de ninguém soluçando na minha beira'. Na mesma hora, ele parou de soluçar."

 

Desde então, toda vez que alguém começa a soluçar na casa do agricultor Evaldo Zandonade, 69, todo mundo já tem uma frase pronta: "Felício Bozzi vem aí!", cujo efeito, garantem, é imediato.

 

"Desde nova aprendi a invocar o Felício Bozzi e até hoje aplico isso com meus dois filhos, de 12 e seis anos", diz a contadora Adriana Zandonade, filha de Evaldo.

 

Se existe técnica para cortar soluço, o aposentado diz só ter uma, que talvez tenha gerado a fama de "cortador de soluço". "Quando se olha para a pessoa, ela fica dominada pela gente. Parece que estou fazendo uma oração e isso corta o soluço logo. Tenho vergonha dessa fama de curandeiro."

 

Agora se o soluço é muito forte, não tem Felício Bozzi que dê conta, principalmente se for com crianças que, afirma ele, "não ficam chocadas facilmente". Mas o aposentado queria ter salvado o Papa Pio XII, que morreu de soluço. "Eu já existia quando isso ocorreu. Imagine se ele soubesse de mim.”

Perfil

 

– Feliciano Bozzi tem 76 anos

 

– Nasceu na localidade de Bateia, zona rural de Castelo, no Sul do Estado

– Filho do imigrante italiano Virgilio Bozzi e da brasileira Verônica Onofre

 

– É o filho do meio de 13 irmãos

 

– Veio morar em Venda Nova há 45 anos, logo que casou e a sua mulher estava grávida da primeira filha

 

– Foi agricultor, serviu ao Exército e exerceu a profissão de pedreiro até se aposentar

 

– Fala o dialeto comum aos descendentes de italianos da Região do Vêneto, Norte da Itália

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