Educação

Após 15 anos de faxinas, Sônia vai ser administradora de empresas

* Leandro Fidelis

(leandro@radiofmz.com.br)

 

O próximo dia 13 de dezembro será um dia muito especial na vida da faxineira Sônia Aparecida Pereira da Cruz, de 32 anos, moradora de Venda Nova do Imigrante. Após quatro anos, ela vai se formar em administração de empresas.

 

Sônia está vivendo aqueles dias típicos de uma formanda: organizando vestidos, agendando salão para preparar o cabelo e a maquiagem, tudo para fazer bonito nos três dias de programação da formatura do 8º período de administração na Faculdade Venda Nova do Imigrante- Faveni, em dezembro.

 

Foi ali que a faxineira dedicou suas noites nos últimos anos para realizar o sonho do diploma de curso superior, mesmo que para isso tivesse que abandonar os afazeres em casa, onde vive com o marido e os dois filhos, um de 11 e outro de 17 anos. “Foi complicado conciliar os estudos e a família, mas meus filhos e meu marido me apoiaram e não deixaram eu desistir da faculdade”, conta Sônia.

Sempre muito alegre, Sônia ficou dez anos longe da escola por causa da criação dos filhos. Quando se casou, ainda não tinha concluído a oitava série e, por incentivo de amigos, concluiu o ensino médio no programa de Educação de Jovens e Adultos- EJA.

 

A faxineira conta que quando decidiu voltar a estudar, o marido entrou em choque, preocupado com a criação dos meninos. Depois de um certo tempo, ele mesmo passou a buscá-la na saída da faculdade à noite. “No primeiro período, cheguei a reprovar em uma matéria, foi um período de adaptação, era muito conteúdo diferente. Um dia meu filho mais velho virou e disse: ‘Nadou tanto para agora morrer na praia?’. E foi aí que continuei.”

Sônia trabalha como auxiliar de serviços gerais no edifício comercial onde ficam os estúdios da Rádio FMZ, ao lado da faculdade, onde é muito popular. Para dar conta de estudar para as provas, ela paga a própria irmã para cuidar da casa dela aos finais de semana. A faxineira paga a mensalidade da faculdade com o seu salário.

 

Na faculdade, foram poucas as vezes em que faltou- só quando os filhos ficaram doentes- e é exemplo para os colegas. “Sônia é um exemplo pra mim. Tinha seis anos que eu estava sem estudar. Sou vizinha de porta dela e foi ela que insistiu para estudarmos juntas. Todo mundo a tem como exemplo”, diz a secretária Michely Jaretta, 26.

 

O professor e coordenador do curso de administração da Faveni, Gláucio Siqueira, afirma ser Sônia uma aluna comprometida e envolvida com a transformação que a educação está fazendo na vida dela. “O principal papel da educação é transformar vidas. Penso que a aluna Sônia está vivendo esse momento. Vão se multiplicar oportunidades e perspectivas.”

 

Na empresa onde trabalha como faxineira, Sônia teve apoio para sua festa de formatura e não está descartada uma promoção. “Ela sempre foi muito esforçada, nunca nos deu problemas. É uma honra ter alguém formada na nossa equipe, e imagino que Sônia vá buscar outro emprego, fazer concursos, caso eu não consiga remanejá-la para outro setor”, diz João Fábio Zandonadi, proprietário do edifício onde a faxineira trabalha. 

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