* Redação FMZ
Imagine a situação: você chega do trabalho, seu marido está tomando banho e deixou as roupas em cima da cama. Você vê um extrato bancário caído sobre a colcha. Dá uma espiadinha e nota que não se trata da conta conjunta nem da pessoal dele. Então descobre a traição… Não, ele não tem uma amante. Mas, além de ter mentido sobre quanto ganhava, não disse que mantinha outra poupança.
Um novo tipo de traição pode colocar em risco sua relação: a infidelidade financeira.
Pode começar também com uma comprinha escondida. De repente o casal está mentindo sobre dívidas e torrando a grana conjunta. No programa “Conexão” do último sábado (18), esse foi o nosso tema. Para falar disso, nosso convidado foi o consultor financeiro e professor do Centro Universitário São Camilo, Marco Antônio Facury. Confira!
FMZ- O que é, na prática, a infidelidade financeira e como começa?
Marco- De maneira simples, podemos dizer que o conceito da infidelidade financeira está associado ao fato de um dos parceiros esconder, falsear, mentir ou omitir informações financeiras para seu cônjuge.
Isso pode começar com atos simples, mas pode ter repercussões muito sérias. A situação na qual o marido esconde da esposa o real valor de seu salário e ainda a existência de uma poupança pessoal, é um exemplo de uma possível forma de infidelidade financeira. Mas isso pode começar com a omissão de uma simples compra de algum produto, por exemplo, uma roupa ou um sapato.
É interessante, no entanto, comentar que esta é uma situação muito mais ligada à comunicação e o entrosamento entre o casal, do que especificamente à questão financeira. A traição financeira é apenas um reflexo da situação entre o casal. O principal questionamento deve ser: por que preciso fazer algo escondido de meu cônjuge? Ou ainda: por que minha parceira está fazendo algo escondido de mim?
Segundo pesquisa da Forbes, 70% das mulheres responderam que a traição financeira é tão ruim quanto a traição amorosa. Porque “dói tanto” quando se mexe no bolso?
Penso que o que dói mais seja a falta de confiança que se instala entre os parceiros. É natural a pessoa pensar: se ele/ela está escondendo isso de mim, o que mais deve estar escondendo? E a falta de confiança mina qualquer relação. Nesse aspecto, o sentir-se traído pode ser fatal para a relação, independentemente se for por questão amorosa ou financeira.
Mesmo nos casos em que há independência financeira entre o casal pode ocorrer a infidelidade financeira?
Interessante esta pergunta, pois ela amplia a noção de independência. Se estamos em uma relação afetiva, o importante é que seja uma relação ganha-ganha, ou seja, deve ser positiva para ambos os parceiros.
Somos indivíduos únicos, com necessidades e desejos diferentes. Nesse ponto, é importante sabermos o quanto cada parceiro está, de fato, envolvido e comprometido com os sonhos e aspirações do outro. E mais: o que tenho feito para contribuir que meu parceiro alcance seus objetivos pessoais. Logicamente, alguns ou vários desses objetivos poderão ser convergentes entre os parceiros. Aí, vale também questionar-se o que cada um tem feito para que o casal alcance também seus sonhos conjuntos.
Pelas suas pesquisas e práticas na área financeira, quem tende a cometer mais a traição financeira, o homem ou a mulher?
Isso varia muito. Está mais ligado ao estado emocional para lidar com determinada situações do que especificamente ao sexo. Vejo casos de homens que tentaram de tudo para esconder situação de endividamento, uma vez que isso poderia representar algo relacionado à incapacidade ou incompetência. Por outro lado, vejo mulheres fazendo compras escondido para suprirem alguma insatisfação pessoal, muitas vezes ligada também à insatisfação com a relação do casal. Em ambos os casos, podem ser valores pequenos ou muito grandes.
Com o argumento de poupar o outro, um dos cônjuges pode não revelar algum problema financeiro pelo qual está passando. Omitir dívidas também pode ser considerado infidelidade financeira?
Não gosto de ser taxativo, pois cada caso é um caso. Pode-se ter uma situação em que um dos parceiros esteja vivendo uma fase difícil de depressão, por exemplo, e saber dessa situação poderia até agravar o quadro. No entanto, em geral, essa omissão pode ser considerada uma infidelidade financeira. Não dá para usar desculpas do tipo “não vai adiantar ela saber”; ou “ele não vai entender isso”. O ideal é jogar limpo, claro, buscando no cônjuge um parceiro para ajudar a sair dessa crise. Mas, realmente, em geral, é difícil para ambos lidar com isso.
Como o casal pode reforçar a confiança mútua e fazer a prevenção desse tipo de traição?
Conversando claramente sobre as questões financeiras. E mais: conversando claramente sobre as necessidade e aspirações de cada um. Isso aproxima os parceiros. Isso pode levar ambos a participarem mais ativamente da vida do outro. Conversar sobre dinheiro não precisa ser para brigar. O nível de aprofundamento desse tipo de conversa reflete, inclusive, o nível de maturidade da relação. Não quero dizer que isso seja fácil. Mas é um exercício possível na construção e reforço da interconfiança.
Hoje se fala muito em “coaching financeiro”, profissionais que orientam na educação financeira. Esse serviço é mais voltado a empresas ou pode ser aplicado a casais também?
Existem hoje profissionais, cursos, livros que podem dar suporte àqueles que estão querendo se qualificar, melhorar a forma como lidam com seu dinheiro. Educação financeira, consultoria financeira, terapia financeira, coaching financeiro são atividades com abordagens diferentes, mas que convergem no sentido de auxiliarem as pessoas a lidarem com o recurso financeiro. Tanto o consultor financeiro, quanto o coach financeiro são profissionais que podem atuar na empresa ou com pessoas, inclusive com o casal.


