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Fim do Caso Valéria: Dinalva pega 18 anos

Por Leandro Fidelis

Tão culpada quanto ele. Por unanimidade de votos (7×0), os jurados decidiram que Dinalva Marques Moura, 20 anos, deve passar os próximos 18 na prisão. Em 11 de setembro de 2004, sua participação foi fundamental no assassinato de Valéria Flávio de Almeida (9) cometido pelo tio Orli no Camargo, Venda Nova.

O julgamento começou por volta das 11h e terminou quase às 22h. Às 21h06, o juiz Evandro Alberto da Cunha proferiu a sentença com o plenário lotado por familiares da vítima e da ré, estudantes, advogados e curiosos. Ao contrário da audiência de Orli, na quarta passada, ontem a sala do Fórum de Venda Nova permaneceu cheia desde o início.

Dentre outros crimes previstos no Código Penal, Dinalva é acusada de homicídio qualificado. Embora não tenha matado Valéria, cabem à dona de casa as mesmas acusações referentes ao seu tio Orli, exceto da ocultação de cadáver. Segundo informações da Polícia Civil, a dona de casa poderá ficar na Penitenciária de Tucum, Cariacica; ou retornar para o presídio feminino de Colatina.

‘Lágrimas de crocodilo’

Durante o interrogatório, Dinalva chorou por diversas vezes e afirmou insistentemente que recebia ameaças de morte do tio Orli. Por isso tirou Valéria de dentro de casa e a levou para a boquinha da mata onde foi morta. Este foi um dos argumentos usados pela defesa, representada pelo advogado Eurico Eugênio Travaglia e pelo estagiário do 4º ano de direito Cristiano Dias Vitelli.

Com base no próprio depoimento da ré, o Ministério Público, na pessoa da promotora Adriana Dias Paes Ristori, convocou os jurados para avaliarem a relação da dona de casa com o tio. Para a promotora, uma pessoa ameaçada de morte jamais conviveria no mesmo quintal que o autor das ameaças. “Dinalva ia à casa do tio e da avó todos os dias ver televisão. Como alguém com medo de morrer consegue ficar tranqüila na mesma sala assistindo TV? Essas lágrimas são de crocodilo”, disse Adriana.

Os debates se estenderam por todo o dia, com alguns intervalos. Os pais da vítima, Tarcísio Almeida e Brandina Flávio, assistiram à sessão na parte da tarde, mas não ficaram até o final.

A dona de casa Tânea Flávio de Almeida, 18, irmã de Valéria, não escondia a revolta durante o julgamento e ficou ao lado do irmão Kelson, 20, e de outros familiares. Colega de escola de Dinalva, ela disse que não imaginava que a dona de casa era capaz de tamanha barbaridade.“Acho pouco pelo que ela fez. Merecia mais. A revolta do povo é grande e não sei o que vai acontecer agora”.

Vidas por trás do crime

A cena da lavradora Lurdes Betine Marques sentada no corredor do Fórum com o neto de três anos no colo é o retrato da angústia das famílias da vítima e dos réus. Todos tiveram suas vidas mudadas em função do crime que chocou Venda Nova e todo o Estado.

Irmã e mãe dos condenados, Lurdes era a única testemunha nos autos do processo a acreditar na inocência da filha. Para o repórter da FMZ, atribuiu a infância pobre de Dinalva e aos maltratos do pai à conduta da filha ao participar do assassinato. “Às vezes acontece uma coisa dessas, é uma tentação. Não é Deus não”, disse.

Desde a prisão de Orli e Dinalva, ela e seus outros quatro filhos tiveram que abandonar o Camargo para evitar a represália dos moradores. Disse que teve a casa revirada e “perdeu a paz”.

Também passou a cuidar do neto. Afirmou estar disposta a abrigar o outro, de sete meses, fruto de um relacionamento da filha com um detento no presídio em Colatina. Com sua condenação, Dinalva será separada do filho.

Mãe de Valéria, a ajudante de cozinha Brandina Flávio, 40, fez tratamento psicológico nos últimos dois anos. Além de Valéria, ela perdeu a filha Cátia, 21, e seu neto Kened, de cinco meses, assassinados em circunstâncias ainda desconhecidas.

Brandina diz que foi rejeitada em várias oportunidades de emprego e que, antes de conseguir uma vaga na cozinha de um restaurante em Venda Nova, ficou seis meses sem sair de casa. Hoje ela mora na sede do município e tenta levar uma vida normal.

* Publicada em 12/12/2006

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