Cidades

Lixo e entulho são desafios no combate à dengue em Venda Nova do Imigrante

Fernanda Zandonadi
jornalismofmz@gmail.com

 

Os moradores de Venda Nova do Imigrante sofrem com a epidemia de dengue. No último boletim divulgado pela Vigilância em Saúde da cidade,  o índice de casos por cem mil habitantes chegou a 652. Para dar uma ideia da gravidade da situação, um indicativo acima de 300 já aponta para uma alta incidência da doença na região. Isso significa que o município já está com o dobro de casos que seriam suficientes para ligar o sinal de alerta. 

 

Em números absolutos, foram notificados mais de 180 casos somente este ano.  Este valor, segundo a Vigilância, ainda não mostra a realidade do município, já que muitos doentes procuram médicos particulares para se tratar, e nem sempre a notificação chega às mãos dos agentes de saúde. Outros contaminados sequer buscam atendimento médico, preferindo ficar em casa até a doença passar. 

 

Este ano, a maior parte dos pacientes ficou curada após muita hidratação e analgésicos para amenizar a dor. Apenas uma criança de dez anos, moradora da Providência, foi diagnosticada com um quadro grave da doença e precisou ser transferida para uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), em Cachoeiro de Itapemirim. O pequeno apresentou melhora, já está em casa e não teve complicações, felizmente. No entanto, em setembro de 2014, a lavradora Cristina Aparecida Peterli da Cruz, de 41 anos, e moradora de São João de Viçosa, faleceu vítima da doença. Mãe de seis filhos, a suspeita inicial era uma virose, conforme relatou o marido da vítima, o pedreiro Ismael Alves da Cruz.  

 

De onde vem a epidemia?

 

A dengue já circula no município há alguns anos. E a pergunta é: porque a cidade está sofrendo com a infestação da doença nos últimos meses? Parte da resposta pode estar nas ruas. Nossa equipe de reportagem percorreu vários bairros da cidade e notou que há uma enorme quantidade de lixo nas margens das estradas. São copos plásticos, garrafas, sacolas, muitas, muitas marmitas de isopor, tampinhas, enfim, uma infinidade de lixo que pode se tornar criadouro do mosquito Aedes aegypti, o responsável não apenas pela dengue, mas pela disseminação do vírus da zika, que causa microcefalia nos bebês, e também da febre chikungunya. 

 

"Já encontramos focos até mesmo em tampinhas de refrigerante e cerveja. Acumulou um pouco de água, pode dar larva. A população está passando por uma epidemia. Não pode, de forma alguma, jogar lixo nas ruas. Esse é um problema de todos. A prefeitura vai limpar, mas é preciso manter limpo. Não é transferir todo o problema para o poder público, que ele não vai dar conta, não importa o dinheiro e a mão de obra que forem empregados", avalia o coordenador da Vigilância em Saúde de Venda Nova, Sílvio Satlher. 

 

O perigo mora ao lado

 


Na Bicuíba,  moradores jogaram até mesmo uma máquina de lavar quebrada às margens da estrada
 

 

No trecho que vai do túnel da Vila Betânea até São João, a situação é alarmante. Em um dos pontos, no Bairro Bicuíba, até mesmo uma máquina de lavar roupas quebrada está jogada às margens da estrada. O lixo está praticamente em frente à casa da aposentada Maria da Penha Milagre, que não se conforma com o descaso de alguns moradores. "Está aí há quase um mês. Alguém jogou e ficou. Eu tomo muito cuidado com tudo, todos os sábados faço uma limpeza no quintal, retiro copinhos e até marmitas que jogam em frente à minha casa. Mas na segunda-feira, quando vou olhar, já está cheio de lixo outra vez", conta. 

 

 

Segundo ela, há mais ou  menos trinta dias, uma equipe da prefeitura passou pelo local e retirou todo o lixo das margens da rua. "O pessoal limpou tudo, mas uma semana depois, já estava tudo sujo de novo", diz. 

 

"Tem um rapaz que sempre passa recolhendo pratinhos, copos, garrafas. No dia seguinte, pode passar que tem lixo de novo. É impressionante", contou um servidor público que trabalhava na poda da grama às margens da BR-262, também próximo à Bicuíba.

 

O coordenador da Vigilância em Saúde explica que há um programa na prefeitura chamado Bota Fora. "Tem um móvel, um eletrodoméstico que quer jogar fora, liga para a Secretaria de Meio Ambiente e informa. Eles agendarão um horário para pegar o produto e levar ao destino correto. Os coletores de lixo não podem pegar móveis e produtos maiores. Por isso temos esse programa. Mas tem que ligar e solicitar", explica.

 

Doença dolorosa e que dá medo

Próximo a São João, o caminhoneiro Jair José Andreão conversa com amigos às margens da estrada. Com sintomas de dengue desde domingo, ele está com medo de que as filhas pequenas também peguem a doença. Em frente à sua casa, há um entulho de lixo, que pode  virar foco do mosquito após uma chuva. "A gente faz tudo certinho em casa, mas não são todos que fazem. Limpa hoje e amanhã já tem lixo na rua novamente", conta ele, reclamando do turbilhão de dores provocada pela doença.

 

 

Lixo em toda parte

 

A sujeira nas vias públicas não é exclusividade de um bairro. Em todos os locais por onde nossa equipe passou havia se não muita sujeira e entulho, ao menos copinhos plásticos e materiais que poderiam armazenar água. 

 

Na Vila da Mata, por exemplo, há vários terrenos desocupados com lixo e possíveis focos de larvas do mosquito. Em São João, há lixo jogado nas ruas e muitas áreas próximas às casas têm entulhos. Em Bananeiras, há lixo principalmente às margens das vias. Até mesmo embaixo dos pontos de ônibus é possível ver potenciais criadouros do mosquito. Na estrada que dá acesso à Tapera, uma via bastante utilizada por pessoas que fazem caminhadas, há muitos copinhos e marmitas de isopor às margens da rodovia, próximo ao entroncamento com  a BR-262. Mesmo às margens da BR-262, há uma vasta gama de lixo que pode prejudicar a saúde de toda população. 

 

Na estrada que dá acesso a Lavrinhas, passando pelo Ifes, mais lixo. Além de sacolas plásticas, há várias marmitas jogadas nas margens da via e dentro da mata. O mesmo acontece no trecho da Matinha: o lixo toma conta do local. 

 


Na Matinha, em Lavrinhas, há muitas marmitas  às margens da via, um "prato cheio" para o mosquito colocar  ovos

 

Na Vila Betânea, bairro com maior número de casos de dengue este ano, há lixo em várias ruas. Chamou a atenção a Avenida Beira Rio, próximo à curva que leva à Escola Liberal Zandonadi: muito lixo e entulho às margens da via. Detalhe: em frente ao rio funciona uma creche municipal. 

 


Na Vila  Betânea, muito lixo acumulado ao lado de uma creche municipal, próximo ao parquinho das crianças

 

Mosquito cada vez mais forte

 

O mosquito está se adaptando ao ambiente urbano. Se antes ele só proliferava em água limpa, uma recente pesquisa realizada pela Superintendência de Controle de Endemias de São Paulo, mostra que o mosquito já se reproduz em águas não tão cristalinas. Esse resultado reforça a necessidade de a população tomar cuidado com a água parada, seja em uma caixa de água ou em uma tampinha de garrafa jogada na rua. Qualquer um desses locais pode ser usado pelo mosquito para se proliferar.  
 

CONFIRA AQUI MAIS FOTOS DE LIXO PELAS RUAS DE VENDA NOVA DO IMIGRANTE

 

Fotos: Fernanda Zandonadi/Rádio FMZ

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