Cidades

Comunidade questiona a proibição de enterro

* Leandro Fidelis

(leandro@radiofmz.com.br)

 

A proibição do enterro de uma mulher gerou questionamentos na última segunda-feira (04), em São Paulo de Aracê, popular “São Paulinho”, em Domingos Martins. O cemitério da localidade é administrado pelo Conselho Comunitário, que só autoriza sepultamentos de moradores contribuintes da taxa anual de R$ 25,00. O cemitério tem mais de 100 anos e mantém sua gestão particular desde sua construção.

 

A mulher, identificada como Gabriela, era canadense e vivia com o marido há pelo menos oito meses em uma casa alugada em São Paulo de Aracê. Segundo uma moradora, ambos seriam aposentados e tinham boas condições financeiras. Há cerca de um mês, a estrangeira descobriu um câncer agressivo, que causou sua morte no início dessa semana.

 

Na última segunda-feira (04), o carro da funerária teria transportado o corpo da mulher até o cemitério de São Paulinho. Apenas nove pessoas participariam do funeral, mas souberam no local da restrição aos sepultamentos de moradores não-contribuintes.

 

Foram pelo menos quatro horas de impasse até a Prefeitura de Domingos Martins liberar uma cova no cemitério de São Roque, naquele município, a 40 quilômetros de estrada de chão de São Paulinho. “Uma situação chata, desagradável”, disse uma moradora, que pediu para não ser identificada.

 

“O senhor ofereceu dinheiro, mas mesmo assim não quiseram enterrar sua mulher”, declarou outra fonte, mediante sigilo.

 

O coordenador do cemitério e membro do Conselho Comunitário, Valmir Bellon, afirmou não ter sido comunicado previamente do enterro e que não estava na comunidade naquele dia. Ele disse que não conhecia a canadense e que a limitação do cemitério foi decidida em assembleia, mantendo uma tradição de muitas décadas na comunidade.

 

“Muitas pessoas não participam das decisões da comunidade e depois querem usufruir dos benefícios. Há moradores que contribuem há mais de 80 anos, cujos filhos também passaram a ser sócios. Se liberarmos para todo mundo, daqui a pouco não tem espaço no cemitério”, declarou Bellon.

 

Ainda de acordo com o coordenador, já ocorreram sepultamentos de pessoas de famílias que se comprometeram a arcar com os custos depois e nunca cumpriram com o prometido. Segundo Bellon, conforme o estatuto, os moradores há dois anos sem contribuir são cortados e ficam proibidos de enterrar familiares no cemitério local.

 

Realidade regional

A existência de cemitérios particulares ou ligados à Igreja Católica ou Luterana são uma realidade na Região Serrana. No Distrito de Aracê, também em Domingos Martins, por exemplo, a coordenação do cemitério só autoriza sepultamentos mediante contribuições frequentes da comunidade.

 

Há municípios como Venda Nova que possuem cemitério público, porém as comunidades da zona rural continuam com os cemitérios particulares ligados à Igreja Católica.

 

Informações não-oficiais dão conta que a Prefeitura de Domingos Martins quer construir um cemitério público na localidade de Cristo Rei. O atual secretário Municipal de Obras, Arnaldo José Cardozo, no entanto, afirmou desconhecer projeto nessa área, já que assumiu a pasta há pouco tempo.

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