* Leandro Fidelis
A primeira lição é produzir um coração, gesto cheio de significado para a Oficina-Escola de Artesanato em Mármore e Granito, no distrito de São João de Viçosa, em Venda Nova do Imigrante, Região Serrana do Espírito Santo. Nesse local, de segunda a sexta-feira, mais do que aprender a fazer bibelôs com restos de pedras decorativas, 40 adolescentes desenvolvem habilidade artesanal como instrumento de crescimento social, econômico e pessoal, semeando a cidadania na comunidade onde vivem.
Fundada em 1998 pela Prefeitura de Venda Nova e com apoio do Sebrae, a Oficina é coordenada pela Secretaria Municipal de Ação Social, que mantém as despesas fixas e o instrutor, Eloi da Silva Leão, que está desde o início. Ele conta que aprendeu o ofício aos 14 anos na sua cidade natal, Santa Maria Madalena (RJ), e hoje, aos 39, não pensa em parar de ensinar a arte de esculpir em mármore e granito.
“Aqui eles chegam novinhos e, quando alcançam os 16, 17 anos, estão mais responsáveis e querem um emprego”, diz Eloi. “Essa turma tem uma grande facilidade de viver em grupo, seja aqui ou em qualquer lugar”, complementa.
Para participar da Oficina, é preciso ter entre 14 e 17 anos, frequentar a escola regular no turno alternado ao das atividades, bom comportamento e nenhum vício com cigarro ou bebida. Eloi afirma que a demanda hoje é de 100 crianças e adolescentes interessadas em frequentar a oficina. Tamanho o interesse fez o projeto abrir para meninos e meninas a partir dos 12 anos. No entanto, os meninos ainda predominam no grupo de aprendizes. “Hoje temos meninos das comunidades de Bicuíba e Camargo, que compõem o distrito de São João. Quase todos os dias é comum vermos curiosos aqui na porta da oficina querendo participar.”
Em máquinas adaptadas para o trabalho com mármore e granito e sem oferecer risco aos oficineiros, os adolescentes aprendem a serrar e lixar as pedras e a dar o acabamento.
De mãos pequenas como as de Willian Péterli da Cruz, 12, saem porta-canetas, corujas, tucanos, relógios e castiçais vendidos na loja da oficina, hotéis da região, pontos turísticos e que também decoram casas e escritórios até no exterior. Da venda do artesanato, 20% do valor vão para manutenção do projeto e 80% ficam com o aluno.
Douglas Gonçalves, 16, é um dos mais velhos aprendizes. Ele lembra com exatidão o dia em que ingressou na Oficina. “Foi 18 de fevereiro de 2004.” Sempre sorridente, embora tímido, Douglas se mantém com o dinheiro que ganha. “Minhas roupas, meus tênis, telefone celular, tudo é comprado com a venda do meu artesanato.”
Após três anos de oficina, que é a média de permanência de cada aluno no projeto, a lição final é a mais almejada pelos iniciantes: produzir a estátua de uma majestosa águia, lapidada em granito e com base em mármore bruto. Sabor de conquista que o veterano Bruno Prexedes Ferreira, 16, conhece bem.
“Eu aprendi que a pedra bruta pode se transformar em várias coisas. Aqui tento ajudar os colegas, não ser melhor que ninguém.”
E se do coração pequeno e simples de mármore do primeiro dia de Oficina à águia robusta de cerca de 15 quilos muitas etapas foram vencidas, pode-se fazer uso da metáfora para mostrar que todos os anos saem do projeto verdadeiras “águias” para a vida profissional, independente da área escolhida.
É o caso do auxiliar de escritório de um posto de combustíveis no mesmo distrito Adriano Silva Pereira Ramos, 22. Quando ainda era oficineiro, começou como lavador de carros até chegar ao cargo atual.
“A maior lição de quem passa pelo projeto é a responsabilidade que adquirimos. O Eloi nos dá muitas lições de vida. É preciso valorizar esse projeto”, diz Adriano.
Outro Adriano, o Mariano da Silva, 25, hoje é dono de marmoraria em Cachoeira Alegre, na zona rural do município, e doa material para a oficina. O sobrinho quer trabalhar com ele, mas já está avisado: tem que passar antes por onde ele começou a sua história de sucesso. “Ali é um local onde se aprende o que são as pedras e como se trabalha em conjunto. Se souber lidar com quem está do seu lado, futuramente vai saber lidar com um cliente. Aprendi muito.”
Há também aqueles que tomaram gosto pelo ofício e hoje instruem meninos na arte de esculpir em mármore e granito. Em Conceição do Castelo, município a 16 quilômetros de Venda Nova, Nilton Beirut dos Reis, o “Nigudo”, 25, iniciou em 2010 um projeto semelhante ao da Oficina com apoio da Prefeitura local. São 74 alunos, sendo oito da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais- Apae.
“Temos o apoio do poder público, de uma instituição financeira e do comércio local. É um orgulho muito grande ter sido aluno e hoje estar ensinando. Tive toda a orientação do meu instrutor para comprar máquinas e começar o trabalho”. Segundo Nigudo, são muitos os relatos de pais que notaram mudanças na disciplina de seus filhos inscritos no projeto.
Artesanato premiado
A Oficina recebe também muitas visitas de turistas e empresários que enchem de ânimo os meninos ao valorizarem a importância social do seu trabalho. O reconhecimento maior foi em 2006, quando a Oficina-Escola de Artesanato em Mármore e Granito de Venda Nova se destacou entre os 100 melhores artesanatos do Brasil no Prêmio Sebrae de Artesanato- Top 100.
Na ocasião, além do apoio na divulgação do projeto, em folders, cartazes e adesivos, o Sebrae encomendou várias peças para presentear parceiros.
“O projeto já está produzindo frutos. O Sebrae apoia a sua divulgação para fazê-lo crescer cada vez mais e mostrá-lo não só para o Estado e para o país, como para todo o mundo”, ressalta a coordenadora da Agência de Desenvolvimento Regional do Sebrae, de Venda Nova.
Novo espaço
O ano de 2011 foi de realizações para a Oficina-Escola de Artesanato em Mármore e Granito de Venda Nova do Imigrante. Em novembro, foi inaugurada a reforma e adequação do seu galpão na Rua Justo Pizzol. O espaço conta com refeitório, uma loja e banheiros adaptados para deficientes físicos.
De acordo com a secretária Municipal de Ação Social, Cyntia Grillo, a Oficina-Escola é a menina dos olhos entre os projetos sociais da municipalidade desde 2010. “Quando criada, foi pensada como programa da Secretaria de Turismo para reaproveitar resíduos de mármore e granito e atrair turistas. Mas a oficina tem um cunho social muito maior que o financeiro, pois promove a cidadania, a ressocialização dos jovens, além de gerar renda para eles e suas famílias.”
Sistematizado como projeto social, a Oficina foi registrada no Conselho Municipal da Criança e do Adolescente e conseguiu recursos para a obra de melhoria.
“É um projeto que cativou todos nós da Secretaria de Ação Social. Resolvemos abraçar a Oficina para valorizar o resgate social desses jovens e promover a cidadania e o crescimento social de cada um, buscando também uma formação educacional, capacitações e dar instrumentos para que eles tenham uma habilidade para assegurar os seus horizontes no futuro.”
Ainda de acordo com Cyntia, o objetivo da Política Nacional de Assistência Social é a garantia dos direitos, atendendo a qualquer cidadão, independente da sua condição financeira. “Não existe projeto para carentes, mas para pessoas em situação de risco: vulnerabilidades, violência física e psicológica, tudo isso é o nosso público. Na Oficina, o que os alunos sentem mais falta é de afeto. Quando conseguimos sanar essa carência, torna-se um grande feito”.
Serviço:
Oficina-Escola de Artesanato em Mármore e Granito
Rua Justo Pizzol, s/nº- São João de Viçosa
Venda Nova do Imigrante- Espírito Santo
* Aberta de segunda à sexta-feira, até às 17h
** Mais informações: (28) 3546-1188






